Uma breve reflexão sobre o embate com a ideologia

Posted: October 29, 2013 in Uncategorized

Aos que não me conhecem, sou psicólogo formado pela UFSC. Graduei-me no final de 2011, mas continuo vinculado à UFSC como mestrando no Programa de Pós-Graduação em Educação. Tais informações são relevantes na medida em que explicam meu envolvimento de longa data com a discussão sobre Empresas Juniores (EJs) no CFH, desde que surgiu a proposta que deu origem ao projeto de criação da Persona – Empresa Junior de psicologia, negado pelo Conselho da Unidade do CFH em agosto de 2011.

Desde então frequentemente escuto, quando o assunto é o questionamento às Empresas Juniores, que o debate sobre essas organizações é “ideológico”. O adjetivo é usado com um sentido negativo, pejorativo, com uma conotação como que religiosa. Usualmente vem acompanhado de comentários visando desmerecer o grupo que apresenta argumentos contrários às EJs (a famosa falácia Ad Hominem), pintando-nos como autoritários (porque somos contra uma proposta ou desejo estudantil, como se algo, por surgir do corpo discente, fosse automaticamente merecedor de crédito) e fundamentalistas (insinuando que não há uma disposição do grupo a mudar de opinião). Basicamente, segundo os críticos de facebook – as acusações raramente são feitas cara a cara –, os estudantes que não querem a existência de EJs no curso de psicologia, e agora, no CFH:

  1. se sustentam em argumentos de crença, não-científicos;

  2. não querem saber de discutir;

  3. querem sim é “impor sua visão de mundo sobre os demais” (citação literal de uma discussão).

É curioso que justamente o adjetivo “ideológico” seja utilizado para nos acusar de tudo isso. Pergunto-me que compreensão do termo tinha aquele que nos atirou a primeira pedra – teria lido a elaboração de Lênin, ou as confusões de Althusser com o conceito? Parece-me mais provável que não, que tenha partido do uso comum da palavra, como a maioria dos colegas, que, ao que percebo, criticam o marxismo sem nunca ter lido Marx, ou apoiam ideias liberais sem saber das obras de um Ricardo ou Hayek. Mas que significado comum seria esse?

Um dicionário comum nos diz que a ideologia é um “sistema de ideias”1, o que não ajuda muito como conceito, pois parece então aplicável à qualquer coisa, da filosofia sofista à geometria euclidiana, do direito romano à física moderna. Segundo tal definição, seguramente a crítica às EJs advém de uma ideologia, mas também de outra depende a apologia a essas organizações. Não haveria aí conotação negativa, apenas uma constatação um tanto óbvia.

Um outro dicionário, ainda da língua portuguesa, elucida um pouco melhor nosso problema. Bueno2 (2000), lista, entre as descrições para o verbete que nos interessa: “convições religiosas ou políticas”. É curiosa a aproximação que este dicionário faz entre as convições religiosas e as políticas. Serão política e religião a mesma coisa também para nossos colegas, por isso taxam nossa crítica às EJs de ideológica? Seguramente, nossa crítica às EJs é política, mas e a defesa das EJs, não o é? Além disso, é sempre válida a aproximação entre política e religião, ou é possível fazer política a partir de ciência? Quem faz política decorrente da ciência, aquele que sustenta sua posição a partir da análise da realidade, e põe publicamente seus argumentos à prova? Ou seria aquele que defende seus interesses particulares a partir da repetição de discursos abstratos e se recusa a participar de espaços de debate?

Apresento agora uma conceituação mais precisa e refinada de ideologia, pertencente à teoria marxiana. Marx e Engels (2007) pensam a ideologia também com um valor negativo, essencialmente como conjunto de discursos que distorcem a realidade e ocultam as contradições sociais34. Aqui fica mais clara a conotação negativa do termo, atribuindo-a à característica de mascaramento da realidade da ideologia.

Trabalhemos agora com esta ideia de ideologia, um conjunto de ideias e discursos que distorcem a realidade. Parece-me compatível com a ideia de argumentos fundamentado em crenças, não em indícios da realidade. Se vamos utilizar um conceito marxiano, necessariamente precisamos pensa-lo a partir de indícios da realidade concreta. Proponho a seguinte reflexão aos leitores: Qual grupo tem assumido uma postura ideológica no histórico da discussão das EJs no CFH? Apresento algumas informações abaixo para auxiliar na análise:

  1. Desde 2011 temos chamado os grupos pró-EJ a participar da mesa de parte dos debates que organizamos na psicologia. Defrontamo-nos sempre com recusas e esquivas, usualmente justificada pela argumentação de que não achavam o debate relevante, que o mesmo era “ideológico”, ou que não estávamos dispostos a discutir de fato. Por outro lado, nunca fomos convidados a compor a mesa de qualquer evento pró-EJ. De fato, o debate do dia 22/10/2013, organizado pela Direção de Centro, contra a vontade do grupo pró-EJ (veremos isso melhor abaixo) foi a primeira vez em que as posições se confrontaram publicamente.

 

  1. Desde 2011, o grupo contra as EJs publicou ao menos oito textos fundamentando e sistematizando sua crítica a essas organizações, a partir de uma concepção clara de que função deve cumprir uma Universidade Pública e da crítica aos conceitos em que se fundamentam as EJs (disponíveis em breve no blog do movimento: https://contraasejsnocfh.wordpress.com/material-de-divulgacao-do-movimento/).

 

  1. Em agosto de 2011 o Conselho da Unidade do CFH recusou o projeto de criação da EJ de psicologia, concordando com os argumentos apresentados por um dos estudantes contrários às EJs, o então graduando em psicologia Allan Kenji Seki. O processo voltou para o colegiado de departamento de psicologia, que então decidiu requerer da decisão do CFH sem sequer ler o parecer escrito pelo colega, cujo conteúdo embasou a decisão dos conselheiros do CFH. Estudantes pró-EJ estavam nessa reunião e não contestaram a atitude dos docentes.

 

  1. Em reunião do Conselho da Unidade do CFH, ocorrido no dia 24/09/2013, o conselho decidiu que a decisão sobre a presença de EJs no CFH se guiaria pela decisão de assembleia geral do centro precedida de amplo debate. Naquela reunião, o grupo pró-EJ (dentre os quais se encontravam membros do Movimento Empresa Junior, Federação Catarinense de Empresas Juniores, da gestão Novos Rumos do DCE, da atual gestão do Centro Acadêmico Livre de Psicologia, e das EJs-em-construção Persona, da psicologia e Tétis, da Oceanografia)propôs que não havia necessidade de discussão e deliberação em assembleia, uma vez que as EJs já estão nacionalmente consolidadas. Em seguida, confrontados com a recusa em massa da proposta, dado o absurdo conformista e acrítico de seu conteúdo, sugeriram uma discussão direto no Conselho Universitário, passando por cima da autonomia do CFH de tomar as próprias decisões. A proposta de decisão por assembleia geral do centro, após amplo período de debates foi defendida pelos estudantes contrários às EJs.

 

A partir destes indícios – e poderia citar mais outros casos – proponho novamente uma reflexão que considero de grande importância neste momento em que acontece o ciclo de debates sobre as EJs no CFH: que grupo tem de fato assumido uma postura ideológica no histórico desta discussão? Qual grupo sustenta sua argumentação com discursos e conceitos abstratos? Qual grupo está fomentando o debate por meio de produção escrita e organização de espaços presenciais de discussão? E principalmente, que grupo se posicionou historicamente contrário aos espaços democráticos de discussão e decisão? Pois não há nada mais ideológico do que privar-nos da possibilidade de questionamento do que já está estabelecido.

 

Por Caio Ragazzi

 

 

1 Ferreira, A. B. De H. Minidicionário da língua portuguesa. 3.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.

2 BUENO, F. da S. Minidicionário da língua portuguesa. São Paulo: FTD, 2000.

3 MARX, K.; ENGELS, F. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007.

4 Ciente das limitações desta breve descrição de um conceito complexo, pontuo apenas que os discursos, do ponto de vista de uma filosofia materialista, decorrem das relações materiais estabelecidas entre os homens e seu meio, possuindo o termo significado distinto de sua utilização nas teorias pós-modernas, em que ganham primazia sobre a objetividade.

 

 

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