Sobre o Jornal TIK: Resposta a Rodrigo Thaler Knolseisen

Posted: November 5, 2013 in Uncategorized

por Caio Ragazzi

 

No debate realizado no dia 31/10/2013, organizado pelo Movimento Contra as Empresas Juniores (EJs) no CFH, um dos pontos defendidos pelos colegas pró-EJ era de que a atuação nessas organizações gerava um aprendizado crítico. Frente a esta afirmação – e à incapacidade de me explicarem exatamente como, ao prestarem serviços majoritariamente de acordo com as expectativas do mercado, fomentam a criticidade em relação ao mesmo – cobrei publicamente dos Empresários Juniores presentes evidência de tal pensamento crítico, na forma de textos respondendo àqueles que nosso grupo já havia publicado.

Fico feliz de obter uma resposta, na forma do texto supracitado: uma crítica a alguns dos textos publicados por nosso grupo na primeira edição do jornal do Movimento, nomeado TIK, em homenagem ao jornalista, poeta e escritor uruguaio Eduardo Galeano.

Infelizmente, o autor escolheu limitar-se apenas a criticas pontuais do conteúdo do jornal, incorrendo inclusive no erro de criticar a ausência de argumentos que se seguiam no próprio texto, caso a leitura ocorresse de forma atenta. Vejamos.

Comentando o editorial de nosso jornal, o colega afirma que o título – cuja parcialidade assumimos, e cujo sentido justificamos – daria a entender que faríamos revelações envolvendo “algum esquema sujo envolvendo EJ’s com corrupção, crime organizado ou algo do gênero”. Pois bem, o sentido da hipérbole utilizada pelo autor nos preocupa, pois nos leva a entender que atentar contra os espaços democráticos de deliberação nesta instituição não é, aos olhos de nosso colega, algo grave. Mais um exemplo da naturalização da ausência de democracia, decorrente talvez de falta de experiência em espaços distintos da lógica empresarial?

Em seguida, Rodrigo nos acusa de mentirosos, quando afirmamos que uma EJ só pode ser desqualificada pela reitoria da UFSC. Não cita evidências para nos desmentir. Como recusamos o título de “ideológicos” que nos é frequentemente atribuídos, vamos a elas: remeto o colega à página 8 da resolução normativa 08/CUn/2010 – que “estabelece as normas que regerão a criação, o reconhecimento e o funcionamento de empresas juniores na Universidade Federal de Santa Catarina – seção II “da desqualificação”, art. 31. Em meio a este artigo encontra-se o seguinte parágrafo (ressalto que trata-se de uma citação literal): “Caso o Reitor venha a considerar irreparável a situação apresentada pelo Comitê Gestor, determinará a desqualificação da empresa júnior.” Ora, parece-me evidente que cabe apenas ao reitor (ou, na conjuntura atual, reitora) a decisão final sobre a desqualificação. Resgato aqui a problematização daquele edital: os demais órgãos deliberativos da UFSC, do curso, departamento e unidade aos quais dada EJ pertence, não mais podem decidir sobre a organização que criaram, daí o problema com a resolução, e seu caráter anti-democrático e desrespeitoso aos princípios básicos da administração pública. Permanece também o questionamento: por que merecem as EJs tratamento diferenciado nesse quesito, perante outras organizações da UFSC?

Entretanto, o colega convenientemente ignorou outros dados trazidos naquele mesmo editorial, que melhor demonstravam a postura anti-democrática que os grupos pró-EJ haviam tomado na história das EJs do CFH. Não cabe recoloca-los aqui, indico aos interessados a leitura do texto original1 para se inteirarem do que nosso crítico esqueceu-se de comentar.

Em seguida o colega Rodrigo afirma que as EJs produzem conhecimento, uma vez que é um espaço onde se aplica o conhecimento apreendido. Nosso colega Rafael Casaril, ex-presidente da Empresa Junior de Engenharia Civil criticou, presencialmente, no mesmo debate citado no início deste texto, entre outros aspectos, a falta de aprendizados relativos às especificidades técnicas da engenharia civil na EJ que presidiu, em que muitos membros exerciam funções meramente gerenciais, a detrimento de seu aperfeiçoamento na formação em engenharia propriamente dita. Há de se pensar se o mesmo não ocorre em outras EJs.

De qualquer forma, esta crítica não é tão importante quanto à da confusão que o autor faz da ideia de “pensamento crítico”. Primeiro, afirma que, para nós, pensamento crítico caracteriza-se apenas por ser um pensamento que “discorde” do sistema capitalista (como se a produção de posicionamento crítico fosse apenas questão de gosto). Ignorando-se o mau uso do termo, o colega está correto quando afirma que consideramos pensamento crítico aquele que critica alguma coisa. Por outro lado, e penso que nosso posicionamento político está bem claro ao longo do jornal, estamos falando de um pensamento crítico ao que já está estabelecido. Mais ainda, estamos falando de pensamento crítico perante um movimento específico, o processo de empresariamento da educação no Brasil, qual seja, a submissão das instituições públicas de ensino às demandas do mercado. Fundamentamos, resumidamente, nossa crítica na percepção de que os espaços públicos de ensino e produção de conhecimento, como as Universidades Públicas, são espaços privilegiados para produzir ensino, pesquisa e extensão críticos à lógica de mercado, uma vez que de sua influência ainda encontram-se, em alguma medida, excluídas. Assim, não faz sentido produzir condições de ensino que reproduzam a lógica empresarial externa à universidade, tampouco fazer o mesmo com a extensão.

Por outro lado, o colega Rodrigo afirma que as EJs produzem pensamento crítico àquele que as critica, que o permite tomar uma posição favorável às EJs a partir de critérios distintos daqueles que apresentamos. Restou apenas apresentar os seus próprios critérios, Rodrigo, como faltou também aos demais defensores das EJs nos 5 espaços presenciais já organizados no CFH, e nos textos já publicados pelo movimento pró-EJ. Se embasam sua defesa apenas no discurso da pluralidade, já publicamos textos criticando-o; aguardamos a crítica da crítica, embora acreditemos que deve haver mais critérios que justifiquem uma posição pró-EJ.

Finalmente, o colega critica um relato de experiência do já citado Rafael Casaril, ex-presidente da Empresa Junior de Engenharia Civil. Novamente, Rodrigo restringe-se a um ponto apenas da crítica contida no texto. Limita-se a criticar a crítica de Casaril sobre a função da organização hierárquica das EJs. Rodrigo, direciono-o ao sexto parágrafo do texto de Casaril. Dali em diante há mais elementos que se esqueceu de comentar em sua crítica.

Finalmente, Rodrigo defende o impacto social das EJs para a sociedade. Citando o colega: “desenvolver a capacidade das pessoas de trabalhar em grupo, pessoas que saibam se ajudar, cooperar conseguindo resolver problemas com maior agilidade, sendo acima de tudo éticas. O impacto está em criar laços de amizade, tanto com pessoas do seu curso, como pessoas de outros cursos/outras universidade. O impacto está, também, em conhecer pessoas novas e com isso culturas novas, pontos de vista novos (e valorizá-los!); está em botar em prática o conhecimento que foi aprendido em sala de aula nos projetos externos.”

Permanece a questão que fazemos repetidamente: o que das consequências listadas por Rodrigo é resultado exclusivo da forma de organização das EJs? No resto da universidade tais aprendizagens não se efetivam? Mesmo que isso fosse verdade, porque os colegas decidem então por preservar sua fórmula pedagógica restrita a um pequeno grupo em cada curso? É essa sua ideia de “cooperação”? O que há de exclusivo nas EJs que justifique sua existência na Universidade, reproduzindo o modelo empresarial e produzindo intervenções pagas, com apenas algumas gotas de filantropia? É essa a ideia de extensão universitária defendida pelos autores?

 

1 https://contraasejsnocfh.files.wordpress.com/2013/10/tik-jornal-do-movimento-contra-as-ejs-no-cfh-ed01.pdf

 

Este texto foi escrito como resposta ao texto intitulado Sobre o Jornal TIK, de autoria de Rodrigo Thaler Knolseisen, e publicado no blog do Movimento Pró-EJs na UFSC.

 

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