A Proposta de Empresa Júnior do curso de Psicologia da UFSC

Posted: November 7, 2013 in Uncategorized

A Proposta de Empresa Júnior do curso de Psicologia da UFSC1

Allan Kenji Seki

Recentemente foi aprovada no colegiado de curso a criação da Empresa Júnior de Psicologia da UFSC. A proposta foi elaborada por uma comissão do colegiado, formada pela profa. Edite Krawulski, o prof. Adriano Nuernberg, a profa. Andrea Steil, e os estudantes Analy G. de Oliveira, Renato Cesar Marcondes e Alexandre Melzer. E uma vez aprovada no colegiado de curso, seguiu para o Conselho de Unidade do CFH onde foi negada.

A proposta se ampara naquilo que o Centro Acadêmico (CALPSI) já identificou muito tempo atrás, desde as primeiras avaliações de curso: que existe uma debilidade em nossa formação profissional, principalmente na articulação entre aquilo que se diz na sala de aula e aquilo com que nos deparamos no momento de intervir profissionalmente. Além disso, há também uma debilidade no contato do curso com a realidade social do nosso estado. Evidência disto é que as enchentes de 2008 em Santa Catarina não mobilizaram o curso para a preparação de profissionais capazes de atuar nestas situações de crises.

A lacuna na formação profissional é óbvia, o que é questionável é por quais motivos a EJ seria a solução mais adequada. Foi essa a pergunta que fiz na primeira reunião para organização do projeto, quando ainda era elaborado apenas por estudantes. E foi essa também a questão que fiz, como membro do Conselho de Unidade do CFH, quando debatíamos a criação da resolução 08/CUn/2010 (que regulamenta as EJs) no final do ano passado. Caso aprovada, a EJ só poderá ser questionada ou mesmo revogada pelo Conselho Universitário. Isto significa que o curso e o centro perdem sua autonomia sobre a estrutura que criaram. Sendo a EJ uma estrutura de iniciativa privada, que se utilizaria da estrutura pública da universidade (professores, bolsas, espaço físico).

A EJ, segundo o princípio da gestão pública da proporcionalidade, não é a melhor alternativa para resolver os problemas de prática de ensino, como se anuncia. A EJ se define por ser uma associação civil, sem fins lucrativos, com atividades educativas e que vinculam os estudantes que dela participam ao contato direto com o empresariado, oportunizando vivenciar a livre concorrência, a defesa da propriedade privada e da livre iniciativa. Como não possui fins lucrativos, o dinheiro recolhido dos serviços prestados são, em geral, gastos com filantropia, custeio da manutenção da própria empresa e, principalmente, com cursos de capacitação e aperfeiçoamento para os estudantes que participam da empresa.

Mas isto, um estudante – que realmente esteja empenhado em atender as demandas do mercado de trabalho – tem oportunidades de sobra para vivenciar na estrutura regular da universidade. Então, porque o modelo de EJ é prioritário sobre outras alternativas? A resposta está em um elemento que tem passado despercebido na definição: o empreendedorismo. Este é o eixo central organizador de todas as propostas de EJ. Para Louis Jacques Filion, um dos autores mais referidos nos estudos da área: “o empreendedor é uma pessoa criativa, marcada pela capacidade de estabelecer e atingir objetivos e que mantém alto nível de consciência do ambiente em que vive, usando-a para detectar oportunidades de negócios. Um empreendedor que continua a aprender a respeito de possíveis oportunidades de negócios e a tomar decisões moderadamente arriscadas que objetivam a inovação, continuará a desempenhar um papel empreendedor. Um empreendedor é uma pessoa que imagina, desenvolve e realiza visões (p. 19)”. Ou seja, o tipo de estudante que se pretende formar na universidade pública é aquele que sabe atender demandas, e não necessidades sociais. Estranho que este curso de graduação que recentemente aderiu justamente ao Programa Interministerial do Pró-saúde, e que visa à reorientação do ensino público para a formação de profissionais capacitados ao atendimento de necessidades sociais (e não de demandas) das políticas públicas de saúde coletiva; por outro lado, sustente uma proposta ostentando a necessidade de atender às demandas do mercado.

Bem, de fato, não é estranho. Pois a professora que presidiu essa comissão – a professora Edite Krawulski – foi justamente aquela que, no momento em que defendi na comissão de reforma curricular, que o nosso curso deveria ter por objetivo capacitar profissionais capazes de atuar na construção de políticas públicas, rechaçou por completo tal proposta, afirmando naquela ocasião, que no máximo, um psicólogo deveria saber atuar em conformidade com as políticas traçadas pelo administrador. E que não faz parte da nossa profissão construir políticas públicas.

A proposta alternativa tem sido apresentada em várias ocasiões, e é o Serviço Modelo Estudantil de Psicologia. Ele se constituiria como um espaço de solução do problema do curso, articulando o que aprendemos na sala de aula, em atividades de extensão não lucrativas e não comerciais. Atenderia diretamente as comunidades e movimentos sociais, e também poderia atender ao Serviço Público. Não se organizaria dentro do modelo ideológico empresarial, portanto os estudantes não seriam reduzidos ao modelo ridículo das diretorias executivas. Assim, um maior número de estudantes poderia participar diretamente sem aprenderem a subordinar uns aos outros, mas no estreito vínculo de cooperação que deveria orientar nossas universidades.

Além disso, atenderia todo o curso – e não somente uma parcela reduzida dos estudantes ―engajados nos projetos – na medida em que seria outra forma (além da avaliação do processo de ensino-aprendizagem) de avaliar e melhorar a qualidade do ensino: os estudantes organizariam projetos de intervenção multidisciplinares em uma comunidade, encontrariam as debilidades de conhecimentos, recursos e técnicas de sua formação e sistematizariam elas em propostas de mudanças curriculares ou proposições de mudanças nas ementas, programas ou mesmo criação de disciplinas optativas – resolvendo as deficiências na origem, a partir da atuação real, concreta e encontrada ao buscar resolver as necessidades de quem precisa.

Assim os recursos públicos são utilizados na atenção aos problemas sociais do nosso país, e reinvestindo eles na melhoria da qualidade da formação dos nossos profissionais. Diferentemente da EJ, que entrega para as empresas privadas (que tem dinheiro para investir em pesquisa e ensino) a consultoria dos nossos alunos, com a experiência de um professor orientador, e não melhora o curso em nada, a não ser para seus próprios integrantes.

Se estes que a propõem querem um “clube de super vantagens”, que o façam fora do espaço público. É preciso lembrar do princípio da supremacia do interesse público sobre o privado, de forma que a Administração Pública não se obriga ao reconhecimento da virtude deste valor político-ideológico (do empreendedorismo). E pelo contrário, encontra motivos para dele desconfiar e se afastar. Do contrário, incorre em um problema grave: o empresariamento da educação. Espero que o próximo semestre possa fazer valer uma reflexão profunda mais que necessária para momentos como este.

1 Este texto foi publicado originalmente em fevereiro de 2012, no PSIU! – jornal do Centro Acadêmico Livre de Psicologia. Levanta discussões ainda relevantes para o atual debate, além apresentar alguns dados importantes sobre a história da tentativa criação de uma EJ no curso de psicologia. Editado com autorização do autor pelo Movimento Contrário às EJs no CFH.

 

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