Será mesmo que a atuação profissional para o fortalecimento da economia nacional não é um exercício diretamente a favor da solução dos problemas sociais do nosso país? – Uma resposta ao texto de Matheus Wendt sobre as Empresas Juniores

Posted: November 8, 2013 in Uncategorized

Será mesmo que a atuação  profissional   para o fortalecimento da economia nacional não é um exercício diretamente a favor da solução dos problemas sociais do nosso país? – Uma resposta ao texto de Matheus Wendt sobre as Empresas Juniores.1

 

 

Allan Kenji Seki

 

Uma das polêmicas mais interessantes que movimentou os estudantes de psicologia em 2011 foi a negativa de criação da Empresa Junior de psicologia na UFSC. Naquela ocasião fui relator de vistas do processo e apresentei um parecer em caráter substitutivo, que avalio: 1) impediu a criação da empresa júnior de psicologia e 2) encaminhou pela realização de uma auditoria sobre as atividades realizadas por alunos e professores em relação às empresas juniores que estivessem em funcionamento sem o devido credenciamento por parte da UFSC. Auditoria essa que ainda não teve início.

 

A euforia causada tanto pela decisão quanto pela divulgação no PSIU! de dezembro de 2011 de um artigo de minha autoria, gerou intenso debate pelos diversos meios de comunicação dos estudantes. Alguns, inclusive, escreveram artigos e pequenos textos que nos indicam os pontos centrais da polêmica.

 

Um destes artigos foi escrito por Matheus Wendt, em seu blog pessoal (“Um Wundt um tanto Wendt: Reflexões de um estudante de psicologia nos dias de hoje”) e essencialmente é uma resposta dirigida diretamente a minha pessoa, que busca contornar as críticas incontornáveis às empresas juniores.

 

Não vou me ater ao debate que levanta sobre a possibilidade de trabalho em relações de hierarquia não-verticalizada, invocando uma “certa” psicologia social universalizante e colonizada para dar respaldo a sua argumentação.

 

Excetuando-se esse atravessamento, o texto de Wendt é muito perspicaz para defender sua tese central: toda iniciativa estudantil seria válida e deveríamos aprender a conviver com a pluralidade de interesses, incentivando todas as alternativas. Portanto, tanto aqueles ligados às EJs quanto os ligados ao SEMPSI merecem incentivo e devem ter seu “lugar ao sol” custeado por verba pública.

 

É um discurso eficiente. No projeto de sociabilidade que temos hoje no Brasil, o reconhecimento das diferenças, multiplicidades, pluralidades, transversalidades (e assim por diante), ao mesmo tempo em que envolve politicamente sujeitos até então historicamente interditados no pensamento social, o faz retirando desses discursos plurais as contradições fundamentais do ordenamento social, inclusive aquelas contradições que até então os impediam de serem reconhecidos como sujeitos.

 

Como um bom empreendedor, Wendt está totalmente apoiado no projeto de sociabilidade que está colocado para a contemporaneidade. Mas que as contradições sejam retiradas do discurso desses sujeitos, não nos impede de forma alguma de resgatá-las: ao contrário este é o imperativo categórico que desafia a todos os que se pretendem críticos.

 

Wendt não discute que papel devem ter as universidades para as sociedades nas quais se desenvolveram. Para ele, a questão é secundarizada em relação aos tipos de usos que diferentes sujeitos, com diferentes interesses podem fazer dela. Assim, se os estudantes de psicologia querem fazer um Serviço Modelo de Psicologia (SEMPSI) que atenda as necessidades sociais e, sobretudo, que contribua para uma formação orientada para o povo trabalhador, que façam. Mas que deixem também os estudantes que querem estabelecer uma empresa dentro do departamento, para que cuidem de seus interesses. Ele poderia acrescentar: “estamos ‘em uma sociedade plural’, onde é possível harmonizar todos os interesses!”

 

E qualquer um estranharia aquele texto se as coisas estivessem ditas dessa forma, pois o papel histórico da universidade não é compatível com qualquer iniciativa, daí mesmo que é ausência do debate sobre o papel da universidade, que nos indica o caráter ideológico de sua argumentação. Ora, coloquemos as coisas claramente, a começar pela concepção de universidade historicamente defendida pelos setores sociais menos conservadores.

 

O papel da universidade é produzir conhecimento, mas não qualquer um. Ninguém deveria esperar que a universidade produzisse conhecimento falso, dogmático ou ainda de senso comum. O conhecimento que a universidade deve produzir é artístico, filosófico e científico. Mas esse conhecimento se permanece engavetado de nada serve, portanto o complemento que dá sentido a produção de conhecimento é que ele deve necessariamente ser tornado acessível – por meio de ensino, divulgação e extensão. E e esse conhecimento deve resolver os grandes problemas (necessidades e nunca demandas) da maioria da população. E quando dizemos “maioria da população” estamos falando – no Brasil – sobre um povo no qual mais de 70% da população dorme sem a certeza de que no dia seguinte terá o que comer e com que alimentar seus filhos.

 

Que o desenho urbano de Florianópolis – que quer dizer a própria distribuição geopolítica do espaço social – nos afaste da imediaticidade da pobreza e da miséria de nosso povo, não pode nos fazer supor que tudo vai bem! Se as universidades brasileiras estão sempre fora (separadas arquitetonicamente) da classe trabalhadora, não é por qualquer razão. Mas a pedra no deserto não deixa de existir quando não há lá quem a observe! A pobreza, a miséria e a violência, tampouco. Essa é a maioria absoluta da população para a qual a universidade tem servido muito pouco. Pois se encontra resoluta em atender demandas (do mercado) e não necessidades sociais.

 

Isso quer dizer que não possam existir necessidades sociais que também sejam demandas formuladas pela sociedade civil. Isso é possível, mas na maioria das vezes não é verdade. Essa deveria ser a primeira aprendizagem para qualquer profissional. Quando as pessoas nos chegam com suas questões, elas fazem demandas, nosso primeiro passo é colocar uma escuta, uma escuta que seja capaz de delimitar qual a necessidade que aquela demanda encobre. Para então agirmos de maneira realmente coerente. Isso diz respeito ao campo da ética, e é lamentável que ainda tenhamos que dize-lo. Esse deveria ser o primeiro debate em todas as salas de aula, mas a demanda dessa sociedade desigual – para que nada realmente mude – no ensina também nos contentarmos a atuar na superfície!

 

Assim, muitos perigos residem no discurso pragmático de pluralidade. O texto de Wendt é um exemplo primoroso: se sobreviver ao julgo do tempo poderá servir à história como a reprodução exata do pensamento de toda uma classe social que dirige a partir da figura do empresariado a formulação e avaliação das grandes políticas econômicas e sociais. É fundamental não retirar os trechos de seu relevo, por isso indico que o leitor atencioso procure e vá encontrar no texto integral todos os contextos de que se possa servir para formar um juízo mais completo. Porém, quero aqui, com as devidas licenças, reproduzir didaticamente o que temo: “O Movimento de Criação da Empresa Júnior de Psicologia acredita que a influência social que uma organização traz a seu país não depende se ela é de natureza governamental, não-governamental ou privada. Não cabendo a nós, julgarmos o tipo de contribuição que ela representa para a comunidade, exclusivamente pelo setor no qual ela atua, mas conhecendo de fato a sua atuação.” – Diz Wendt.

 

Um livro fenomenal lançado pela Professora Dra. Lúcia Maria Wanderley Neves, intitulado Direita para o social e esquerda para o capital, lança as bases para que possamos compreender que fenômeno é esse, de uma ‘esquerda’ que se volta submissa para atender os interesses do capitalismo dependente e de uma classe dominante, sobretudo revestida pela figura do empresariado, que se volta a pensar as políticas sociais, apresentando projetos – dentro se seus interesses, claro! – para todas as grandes políticas públicas orientadasà classe trabalhadora. Essa nova direita, que assim, forma seus quadros dirigentes para ocupar posições no Estado e nas grandes empresas, modulando o projeto de sociabilidade de maneira a abandonar cada vez mais a coerção para submeter todo o conjunto social ao mercado de forma consensual.

 

Assim, sob esse discurso ideológico que a Confederação Nacional da Indústria chama de “ativismo empresarial de novo tipo”, toda uma série de políticas sociais é reconfigurada aos interesses do empresariado. Se hoje utilizam os recursos das universidades para incubar empresas, no futuro farão como o restante do empresariado que no SUS começa como serviço suplementar, para em seguida criar as Organizações Sociais (OS) que servem à privatização do sistema de saúde brasileiro. Ou como as grandes construtoras que mudam muitas vezes o zoneamento das cidades, expulsa populações inteiras em nome da especulação imobiliária.

 

A iniciativa privada, o empresariado, o grande capital é capaz de fazer políticas sociais, criar escolas, unidades de saúde, segurança etc. Quando encontra nisso, novas potencialidades de lucros. Veja como o Itaú social investi somas enormes de recursos na educação básica de crianças, criando uma massa de pessoas mais propícias a compactuar com seus interesses. Ou como o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial cria programas de formação da mão de obra dos trabalhadores, tão somente para lê-los disponíveis como mão de obra mais barata (quanto mais trabalhadores disponíveis, ou seja, formados para aquele trabalho, pela lei da oferta, mais barato se paga pela mão de obra). É esse o ativismo de novo tipo que está em jogo.

 

Notemos o refinamento muito bem tecido, muito bem preparado, e do qual essa peça textual que ora analisamos é apenas objetivação: “Allan também diz que a utilização dos recursos públicos na atenção aos problemas sociais do nosso país é uma exclusividade do Serviço Modelo. Um dos maiores problemas sociais do Brasil é, sem dúvida, a inserção laboral adequada de seu povo, fator essencial para a cidadania e para uma vida digna, livre e independente, uma vez que um cidadão trabalhador é aquele capaz de produzir seu próprio sustento assumindo a autonomia em sua vida. O índice de pessoas desocupadas no Brasil encerrou 2010 em uma média de 6,7% – o menor porcentual desde 2002. No primeiro semestre de 2011, o desemprego seguiu caindo mês a mês. O índice se aproximou daquele que os economistas consideram pleno emprego”- e conclui: “Será mesmo que a atuação do profissional de psicologia no fortalecimento da economia nacional não é um exercício diretamente a favor da solução dos problemas sociais do nosso país?”.

 

Assim como não teci maiores (embora merecidas) considerações sobre a teoria da psicologia social de que aquele estudante utiliza para sustentar sua argumentação, aqui também não me aterei com maior profundidade aos aspectos da economia política, pois do contrário fugiria do objetivo desse texto, que neste ponto já cobra de seus leitores bastante paciência para chegar até o final! Esse sujeito abstrato e indefinido, “os economistas”, como se houvesse consenso (a palavra aqui não se repete por acaso!) de um grupo bem esclarecido, mas sem identidade, sem contexto histórico – um sujeito que se ergue no ar puxando-se a si mesmo para falar desde fora (mas fora de que lugar?). É esse sujeito que é invocado para falar sobre o “emprego pleno” e a grande contribuição que o desenvolvimento e o empresariado têm para a nação.

 

Preciso dizer que “emprego pleno”, ao oposto do que pode parecer aos desavisados, não representa emprego para todos, e sim a margem ideal de desemprego formal, na qual as forças produtivas (os trabalhadores) são empregados, mas não podem reivindicar maiores salários, pois há aqueles 6,7% de trabalhadores desempregados (e desesperados) dispostos a assumir seu emprego tão logo o empresário coloque o empregado-reclamão para a rua?

 

Preciso dizer que esses empregos geram para o país uma renda per capita inferior ao salário mínimo constitucional para 60,7% do povo brasileiro2? Que as mesmas vozes que falam sobre esse tal de “emprego pleno” tem que reconhecer que não é possível viver em condições mínimas de reposição do desgaste ocasionado pelo emprego, senão com um salário mínimo muito superior: “[…] para manter um trabalhador e a família dele, suprindo gastos com alimentação, moradia, educação, vestuário, saúde, transportes, higiene, lazer e previdência social em agosto deveria ser de R$ 2.589,78, ou seja, 4,16 vezes o piso vigente”?3

 

Não negamos o direito desses estudantes que querem ser empresários de que o façam, mas queremos que reconheçam o direito da Universidade Brasileira de pensar sobre o que é prioritário para a maioria da nação. E nesse momento, são as necessidades. Estes estudantes que se dizem impedidos de receber a instrução que desejam se forem sinceros em suas convicções terão que reconhecer: há dezenas de vagas de estágio (com bolsas, supervisores, amplo material didático-pedagógico e inúmeras vagas de treinees) em grandes empresas nacionais, nacionais-multinacionais e multinacionais estrangeiras, onde sempre serão acolhidos de bom grado pela iniciativa privada, que os treinarão dentro dos marcos do projeto de sociabilidade empresarial-empreendedor.

 

Conquanto os estudantes que quiserem colocar os pés no chão da escola pública municipal, trabalhar nos presídios, nas associações de bairro, nas unidades de saúde da família – ou nas várias políticas outras que o povo organizado lutou para conquistar – não encontrarão igualdade de condições. Logo serão desestimulados porque faltam orientadores, pois não há supervisores locais ou bolsas de estágio. Para eles faltam artigos científicos, linhas de pesquisas, financiamento, espaço físico e mesmo referências teóricas de base.

 

A armadilha ao pensamento é justamente que ao invés de defender sua posição como pensador da classe dominante, Wendt tenta prender seus leitores ao discurso da pluralidade (justamente essa expressão tão valiosa para amplas parcelas da esquerda: uma direita que se reveste de democrática?). Afinal, quantos mais se arriscam a falar contra a “diversidade”, a “pluralidade”, a “multiplicidade”, a “democracia”? Colocadas de forma abstrata essas categorias que são para nós – os críticos –, de conteúdos libertários e que antecipam os fundamentos da emancipação do humano pelo humano, se tornam as algemas do pensamento. Impedem que possamos falar contra elas, embora estejam sendo usadas contra a liberdade e a emancipação. Porém, esse não é um confronto de palavras, é um confronto de projetos. Debatamos os projetos e a crítica estará livre das palavras para encontrar as ideias encobertas. Damos assim, um novo passo para o revigoramento da crítica.

 

A estes leitores que resistiram a um longo texto, com paciência, além de minha gratidão, uma última palavra para evitar velhos equívocos. Não floreei aqueles a quem menciono, nem tudo aquilo a que, penso eu, eles se referem. Mas se não o fiz, não foi por considera-los banais, senão por leva-los muito a sério em cada única palavra proferida. Não os tratei com delicadeza, mas com o rigor com que gosto de ser tratado. Quero alertar, entretanto, que aqui, como em qualquer debate sério, as pessoas só importam na medida em que representam categorias de análise, em que representam relações entre interesses de projetos distintos. As concepções de que partilho para analisar a realidade impõe severamente o abandono do indivíduo como o responsável (ou “culpado” – nessa expressão asquerosa de senso comum e que só gera mais confusão do que esclarecimento) por relações das quais ele é tão somente uma objetivação, muito embora, ele possa subjetivamente julgar-se acima delas.

 

 

1 Texto produzido em outubro de 2012. Editado com autorização do autor pelo Movimento Contrário às EJs na UFSC. É interessante observarmos como, na medida em que buscamos avançar em nossas críticas, os discursos de defesa das EJs permanecem os mesmos. Resta esperar que surja agora uma réplica à altura, e aos demais textos publicados pelo Movimento Contra as EJs no CFH.

 

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