Sobre “pluraridade” e “imposição de ideologia” no debate a favor ou contra as Empresas Júniores no CFH

Posted: November 10, 2013 in Uncategorized

 

Sobre “pluraridade” e “imposição de ideologia” no debate a favor ou contra as Empresas Júniores no CFH1

 

Renan Vermeulen Noceti
(Turma 2004.1, formado em psicologia em 2008.2)

 

 

Aviso de antemão que não vou defender nem Serviço-modelo, nem Empresa-júnior, independente de minha opinião a respeito. Quero discutir é a qualidade do discurso que está sendo realizado por essa lista em torno dos dois projetos e seu antagonismo. E com esse anúncio, espero que prestem mais atenção na relevância das informações que eu apresento, e menos pro “time que eu torço”.

 

Quero destacar um problema grave que estou notando no discurso de alguns colegas nesta lista, presente em parte das manifestações. Esse problema é a noção de “deixar cada um escolher o que quiser” e de “imposição ideológica”. Vou ilustrar o  problema que percebo nesse discurso por meio de um exemplo caricaturado. Eu gosto de tomar sorvete de morango e de ouvir Beatles. Ninguém tem o direito de me “impor” tomar sorvete de chocolate e me obrigar a ouvir Fiuk. Porque essas escolhas dizem respeito a mim mesmo, ao que eu faço na intimidade do meu quarto, da minha vida pessoal. Essas escolhas são minhas, e vocês não tem nada a ver com isso. Até aí, o discurso de “livre-arbítrio” é válido. Pois, quanto tomo sorvete ou ouço Beatles, a minha liberdade não interfere na de vocês.

No entanto, se eu escolho fazer “isso” ou “aquilo” no meu curso de graduação de nível superior, a história é outra. Completamente outra! Meu curso de graduação não é meu quarto, meu sorvete, minha música. Meu curso de graduação é minha capacitação profissional para intervir na sociedade. Sociedade que paga pela capacitação profissional para que eu resolva aquilo que é necessário para ela (vulgo necessidades sociais).

 

Se me permitem mais uma vez um exemplo caricaturado, e se eu resolver montar um prostíbulo-modelo dentro do curso de Psicologia? “Eu acho” que o Psicólogo deve intervir por meio de cafetinagem. E eu vou montar esse projeto. Vocês vão querer me impedir? O que vocês tem a ver com isso? Eu não tenho direito a minha opinião? E se tiver mais alunos que também querem trabalhar no meu prostíbulo-modelo? E se esses alunos forem a maioria dos alunos do curso? É escolha deles, cada um faz o que quiser… o prostibulo-modelo é apenas mais uma associação estudantil, como qualquer outra, e pode conviver pluralmente com associações atléticas, centros acadêmicos, empresas júniores e serviços-modelos. Ou não? Porquê alguém deveria ter o direito de debater minha escolha de montar um prostíbulo-modelo no Curso de Psicologia?

 

Um curso de graduação se insere numa universidade, uma instituição social com função social bem definida. E o meu “sabor de sorvete” não se equivale ao meu “sabor de intervenção”. A minha escolha, no caso da intervenção, vai afetar muita gente em volta. Vai afetar a sociedade que arca com os custos dessa intervenção. Vai afetar essa sociedade que sofre os prejuízos ou ganha os benefícios dessa minha intervenção. Aí a minha “liberdade de escolha” começa a interferir com a “liberdade” de outras pessoas. Se estendermos a análise, pode estar mesmo interferindo com a liberdade de sobrevivência das pessoas mais oprimidas dessa sociedade.

 

E é nesse contexto que o movimento contra as Empresas Júniores apresenta seus argumentos – ainda que eles sejam objeto de debate! A (im)posição desse movimento não é uma imposição, sinto-lhes dizer. É uma posição ideológica muito bem marcada. E soa como imposição para quem acha que existe “posição neutra”. E essa posição explicita que sua escolha de intervenção profissional deve ser pautada por critérios sociais bem definidos, e que escolher um projeto de curso de uma universidade não é uma questão de caprichos, gostos, fetiches, vontades pessoais. Escolher um projeto de curso qualquer (como um prostíbulo-modelo) não é válido “só porque eu quero assim e pronto”. Isso não é uma posição neutra. É uma posição ideológica, e perigosa, porque ao contrário da posição do movimento contrário às EJ, se disfarça de uma suposta e falsa neutralidade, que a exime de ser contestada. O discurso do movimento pró-EJ desloca o debate depara quem irá servir as EJ?” para a (falsa) questão de que “se as pessoas querem fazer uma EJ, ninguém deveria ter o direito de impedir, porque isso é pluralidade”.

 

Uma Empresa Júnior pode ser socialmente pautada? Tenho a sensação que sim. Pode ser coerente com as necessidades de um país? Talvez. Acho que vale a pena avaliar. Vamos compará-la ao serviço-modelo? Os dois projetos competem de fato um com o outro? Podem coexistir? Que decorrências cada modelo tem para a capacitação profissional de nível superior? E para a sociedade? Todas essas são perguntas válidas, para um debate de qualidade dentro de uma universidade. Ora, com algum esforço, podemos até demonstrar que o movimento contra as EJs está equivocado, porque não? Que suas premissas acerca de uma Empresa Júnior não tem fundamento?  Apresentem suas “armas” (seus argumentos!). E vamos discutir um projeto político de curso, de universidade e de país. Repito: vamos debater projetos de universidade, e não reclamar que estão querendo acabar com a pluralidade da universidade e impor ideologias. Esse discurso é, na melhor das hipóteses, ignorante, e na pior das hipóteses, criminoso, pois põe em cheque a função social da Universidade.

 

E com isso tudo, eu volto a destacar o problema do discurso. Em parte do que estou lendo, não estou vendo debate inteligente em defesa em relação a um projeto político. Estou vendo um discurso ingênuo e descabido sobre “liberdade de escolha” e acusações de “imposição ideológica”. Ironicamente, esse tipo de discurso é a maior imposição ideológica de todas! A imposição ideológica de que “cada um pensa como quer, faz as escolhas que quer, e ninguém tem nada a ver com isso”! Seja na hora de tomar sorvete ou de escolher um projeto de empresa júnior ou de serviço modelo para um curso de graduação. Desculpem, não permito que vocês me imponham isso.

 

Sugiro que avaliemos nossas noções de “imposição ideológica” e de “liberdade de escolha”. Se você (acha que) é livre para escolher o que quiser – seja pra tomar sorvete ou fazer uma escolha profissional – então você é livre para prejudicar os outros por meio de suas escolhas.

 

 

1 Texto adaptado de um e-mail originalmente enviado para a lista de e-mails dos estudantes da graduação em psicologia (psiufsc) em Janeiro de 2012, no processo de discussão das EJ e Serviço-modelo que houve naquela época. Republicamos por acreditar que o conteúdo continua pertinente no debate atual.

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