Pra quem e pra que servem as geociências?

Posted: November 11, 2013 in Uncategorized

Pra quem e pra que servem as geociências?

Bia Borges e João Victor 

Esta é uma questão relevante e atual, pra que e pra quem o estudante e o profissional da área de geociências produzem seu conhecimento. Partindo do ponto de que o papel da universidade é fomentar a imaginação inventiva, a criticidade e criatividade, além de pensar nos grandes problemas nacionais, sempre a partir da perspectiva das maiorias, devemos pensar em como se dá a produção de conhecimento na área das geociências, dentro da universidade publica brasileira.

Esta produção só pode ser analisada a partir de uma contextualização histórica e econômica do Brasil, que após sair do período colonial, adentrou em um novo momento de sua história, conceituado por vários teóricos como Florestan Fernandes e Rui Mauro Marini, como capitalista dependente. Os dirigentes do país não possuíam qualquer perspectiva de uma nação autopropelida e autodeterminada. O saber, a tecnologia e a ciência permaneciam completamente afastados da população e isto bastava.

Em meados do século XX, com avanço da tecnologia nos países de capitalismo central (os chamados desenvolvidos), bem como momentos de crise e deflagração da II Guerra Mundial, estes passam a necessitar do repasse da tecnologia obsoleta para os países periféricos (os ditos subdesenvolvidos). Para garantir a valorização das novas tecnologias, fez-se necessário se “livrar” das antigas, repassa-las aos países menos desenvolvidos. Esta é a marca principal de nosso desenvolvimento industrial e tecnológico, uma involução, um processo de atraso na produção do conhecimento.

Tudo isto com forte intervenção estatal, por exemplo, com os setores militares e industriais apoiando a criação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SPBC), o Conselho Nacional de Pesquisa(CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal do Nivel Superior (CAPES). Seguindo esta mesma lógica existe uma mudança de perspectiva da educação superior, focando apenas uma pesquisa tecnológica e o ensino manualesco (baseado em manuais e não em um ensino crítico). Um exemplo foi a criação do ITA( Instituto Tecnológico da Aeronautica). O golpe militar de 1964, fomentado pelos mesmos países que necessitavam de nosso atraso tecnológico,  apagou qualquer tipo transformação na educação, realizando a reforma universitária de 1968, que dividiu toda universidade em departamentos, especializando o conhecimento, fragmentando as formas de conhecer, separando o técnico do crítico, do humano e das artes.

Neste contexto é que voltamos ao questionamento inicial e nos perguntamos: que tipo de conhecimento estamos produzindo nas geociências hoje? Estamos pensando em soluções criativas para os desafios energéticos? Buscando soluções para que se concretize a soberania alimentar das gerações atuais e futuras? Procurando a melhor forma de gerir e proteger os recursos costeiros do país, visando o aproveitamento da maior parte da população?

Peguemos por exemplo, o caso do petróleo. Dentro deste panorama de imperialismo e dependência, um país que seja uma potencia econômica, além de possuir o controle da produção de sua própria energia, tem que impedir que outros países o tenham, para que possa comercializar esta energia. Desta forma as regulações mercadológicas do capitalismo mundial impedem a autossuficiência de nosso país em termos de petróleo. Ou seja, se mantermos a produção de conhecimento subordinada ao mercado, não conseguiremos superar a falta de tecnologia e recursos para extração do mesmo, bem como a insuficiência de conhecimento em gestão de recursos.

Outro exemplo de fácil identificação são as patentes. Hoje toda invenção é transformada em patente. Mas para desenvolver uma patente são necessários recursos humano, estrutura e investimento financeiro. Aqui no Brasil a grande maioria destas pesquisas são feitas nas universidades, aproveitando-se da estrutura desta para produção de patentes, sem efetuar um retorno objetivo para universidade e para a sociedade. Assim a pesquisa universitária se transforma num mero fator de economia para as empresas.

Uma forma de colocar isto em prática é o Projeto de Lei 2177, que propõe um novo Código de Ciência, Inovação e Tecnologia, atualmente em análise na Câmara dos Deputados. Este projeto de lei regulamenta a relação publico-privado, permitindo parcerias que nada tem de parceiras na medida em que favorecem apenas as empresas que dela usufruem. A partir deste novo código abre-se a possibilidade de uso das estruturas universitárias, da mão de obra de professores e estudantes, e até a transferência direta de recursos, para o desenvolvimento de tecnologias cuja patente permanecerá com as empresas envolvidas, incluindo sua divulgação e comercialização dos resultados.

Isto reverbera também na precarização das condições de trabalho e ensino dos professores, que tendo que se submeter a lógica de uma empresa privada para realizar pesquisas e complementar os já precarizados salários, passam a não priorizar a aprendizagem de seus alunos e tampouco a relevância de sua produção cientifica. O PL, na prática, se daria da seguinte forma: o estado paga, com o dinheiro de toda população brasileira, para que uma indústria X, faça uma pesquisa de interesse próprio, usando pesquisadores e laboratórios da universidade e no fim reverta todo impacto social e lucro disto em prol de si mesma! É isto que estamos considerando como avanços sociais? O poder econômico não quer e, a rigor, não pode conviver harmonicamente com uma universidade critica, querem sim transforma-la em uma organização de serviços, usando a mesma quando necessário, utilizando-se de um bem que deveria ser publico em prol de seus interesses privados.

Se, assim como fazem as Empresas Juniores, apenas nos pautarmos pela lógica do mercado e as demandas que este nos solicita, não conseguiremos avançar sobre estas questões que tanto afetam o Brasil, dado que nossa economia se situa no panorama recém descrito. Nossa universidade, da maneira que esta dada hoje, foi construída para manter nossa dependência tecnológica e econômica, em um processo nada democrático. As EJs são mais uma das maneiras encontradas para reproduzir esta lógica, na medida em que não possuem liberdade de debruçar-se sobre problemas nacionais, pois dependem do mercado, impedindo assim que consigamos pensar tecnicamente sim, mas antes, de forma a fomentar a imaginação inventiva, sem a qual não poderemos superar a colonialidade do saber.

Por fim perguntamos: é com este panorama de produção de tecnologia que queremos contribuir? É subordinado a este mercado que queremos estar? Ou podemos ir além? Nós acreditamos que através da defesa da universidade publica, gratuita e de qualidade é que poderemos ser de fato criativos e críticos, produzindo conhecimentos e desenvolvendo tecnologias que façam diferença de fato, que modifiquem a realidade na qual nos encontramos. Não vai ser através do mercado que superaremos nosso atraso energético, que olharemos com seriedade para os impactos ambientais ou ,que alcançaremos uma soberania alimentar, mas sim através de uma produção de conhecimento que esteja comprometida com a superação dos dilemas nacionais e com o desenvolvimento de um país mais forte, justo e soberano.

Há hoje a necessidade de direcionar esforços para que haja atuação pratica e formação técnica, sendo que as quais sirvam para o desenvolvimento social e contribuam para a melhoria da condição de vida de grandes parcelas da população, esforços estes que só serão concretizados se houver formação critica visando novos espaços de atuação sem que sejamos reféns do mercado.

Para saber mais: a análise contida neste texto foi baseada em autores como Florestan Fernandes, Rui Mauro Marini, Ludovico Silva e Roberto Leher. Para saber mais sobre a PL 2177, visite o llink:http://gtnup.files.wordpress.com/2013/07/cartilha.pdf

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