O outro lado do outro lado da tirinha

Posted: November 12, 2013 in Uncategorized

O outro lado do outro lado da tirinha

 

Caio Ragazzi

 

            Caros colegas da Persona, segue uma tréplica à nossa primeira tirinha, publicada em 29 de outubro.

Em primeiro lugar, nos surpreende o fato de que optaram por responder apenas aos quadrinhos, sem nenhuma referência ao texto que os acompanham. Entendam, a tira em quadrinhos é apenas uma forma de expressar, por meio do humor e ironia, a essência de algumas contradições. Mas a crítica fundamental[1] – acompanhada de alguns dados referentes à postura de vocês em diferentes momentos da história do processo de tentativa de criação de uma EJ, curiosamente omitidos do vídeo que gravaram sobre a Persona – permanece não respondida.

Solicitamos também que não coloquem palavras em nossas bocas. Em nenhum momento de nossos textos e debates chamamos os empresários juniores de alienados ou estúpidos. Criticamos sim a forma EJ, e o argumento da pluralidade, da forma como vem sendo utilizado. Cobramos rigor argumentativo e demonstração do pensamento crítico das EJs; não saímos xingando ninguém nem rebaixando o nível das discussões aos ataques e pressões pessoais. Isso é diferente do que vem sendo feito por colegas pró-EJ, pelo que indica, por exemplo, a campanha “UNFRIEND EM TODO MUNDO” [que curtiu o Movimento Contra as EJs][2], realizada no twitter por pessoas que não iremos aqui nomear. Solicitamos aos colegas exercitarem a capacidade de separar a crítica política direcionada às organizações – que pode sim ser realizada com humor e escracho – dos ataques pessoais, que devem ser evitados por todos nós, para evitar o desgaste de nossas relações ao longo da vida universitária.

Sobre sua argumentação em torno da experiência pessoal, confesso não compreender a lógica desenvolvida. Vocês afirmam que a experiência pessoal não constitui seu argumento central, mas é o que os permite argumentar a favor das EJs. Parece-me mais um truque linguístico do que uma resposta de fato. De forma alguma desprezo a experiência como base de qualquer análise da realidade, mas limitarmo-nos às impressões imediatas não é fazer ciência. Qualquer pessoa pode tecer elogios a si mesma, mas isso não os torna verdade. Da mesma forma, afirmar que os empresários juniores podem impactar positivamente a sociedade não significa nada sem dados que corroborem. Imaginei que estivessem acostumados a demonstrar resultados, já que visam à atuação em empresas. Não que na universidade não precisemos fazê-lo, mas conheço de perto a precariedade da formação em pesquisa na graduação em psicologia.

Seus comentários sobre o conceito de ideologia causaram-me surpresa, uma vez que afirmam buscar “observar os fatos sociais objetivamente”. Onde está a comprovação objetiva das consequências da participação em EJs para a formação, se seus argumentos fundamentam-se na “impressão” individual sobre a experiência imediata? Há pouco de objetivo nessa linha de raciocínio.

Sobre a pluralidade, já escrevemos mais de um texto discutindo exclusivamente o conceito (não respondidos até aqui). Apenas comento que, se acham que a decorrência lógica do princípio da pluralidade é que tudo é automaticamente válido e passível de aprovação em nossa universidade, para que serve o conhecimento científico? Ainda mais, tratando-se de utilização de dinheiro público! O que diriam de um político que pretende aprovar qualquer projeto descabido, justificando-o apenas com o discurso da pluralidade?

É para evitar esse tipo de irresponsabilidade nas instituições públicas que a administração pública é regida por princípios distintos da lógica privada, a saber: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência[3]. O princípio da impessoalidade, em particular, é relevante para a discussão, na medida em que, enquanto na esfera privada a pessoalidade impera, na esfera pública ela não pode existir. Assim, qualquer ato da gestão pública deve visar o bem coletivo, não a promoção de um indivíduo ou pequeno grupo, como realiza a EJ.[4]

Finalmente, sobre a acusação de preconceito de nossa parte, ao retratar um empresário junior utilizando uma gravata, sugerimos aos colegas menos dramaticidade nas colocações. Foi um recurso estilístico visando o humor e a fácil identificação das partes na história. Da mesma forma, recorremos aos estereótipos para caracterizar a nós mesmos, do Movimento Estudantil – o homem barbudo e a mulher franzina. E definitivamente não desenhamos nenhum blazer.

Sobre a reflexão final de vocês, sugiro aos leitores compararem a produção crítica dos dois grupos, e tirarem suas próprias conclusões sobre a qualidade dos argumentos utilizados.

No mais, agradeço sinceramente a resposta, pois só contribui para avançarmos em nossa discussão. Novamente ressalto, entretanto: uma pena não responderem ao texto, do qual a tirinha constituía meramente um anexo.


[1] Refiro-me ao texto “uma breve reflexão sobre o embate com a ideologia”. https://contraasejsnocfh.wordpress.com/2013/10/29/uma-breve-reflexao-sobre-o-embate-com-a-ideologia/

[2] Pode parecer algo bobo – e de fato o é, pensando em termos da maturidade emocional e política dos propositores da campanha – mas revelam uma diferença importante entre a pequenez da política dos corredores e redes sociais e o embate político sério, centrado na argumentação em torno de projetos, e não na calúnia, difamação e assédio pessoais.

[3] Emenda constitucional 19, de 04 de junho de 1998. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Emendas/Emc/emc19.htm#art3

[4] Aqui já rebato também o segundo dos três textos publicados pelo Movimento Pró-EJ, intitulado “Persona non grata”, e que confunde, ao evocar a constituição federal, a esfera privada da vida dos sujeitos, com a dimensão da administração pública. 

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