Um balanço crítico do processo de debates sobre Empresas Juniores no CFH

Posted: November 12, 2013 in Uncategorized

Um balanço crítico do processo de debates sobre Empresas Juniores no CFH

 

Caio Ragazzi e Allan Kenji Seki

 

As últimas semanas foram intensas no CFH, marcadas pela discussão sobre as Empresas Juniores. Há poucos dias da assembleia geral do CFH, em que estudantes, professores e TAEs decidirão sobre o futuro dessas organizações em nosso centro, produzo neste texto uma avaliação crítica sobre o andamento dos debates. Como dissemos no editorial da primeira edição do TIK – jornal do Movimento Contra as EJs no CFH: para compreender organizações como os movimentos pró-EJs e contra EJs, faz-se necessário ir além da análise dos discursos que produzem, e avaliarmos suas práticas, se a maneira como atuam é coerente com seus discursos. Fundamentarei, portanto, minha crítica a partir da exposição de alguns dados sobre os embates entre os dois grupos.

Desde o dia 21/10, o Movimento Contra as EJs no CFH organizou cinco espaços aberto de discussão, apresentando e defendendo publicamente sua crítica às EJs: debate de lançamento da campanha contra as EJs no CFH (21/10); roda de conversa sobre a prática das EJs a partir da crítica de ex-integrantes (31/10); debate sobre a diferença entre EJs e serviços-modelo (07/11); debate sobre as diferentes formas de materialização do empresariamento da universidade (11/11); roda de conversa sobre pluralidade, democracia e autoritarismo (a ocorrer dia 12/11). Participamos também das duas mesas de debate organizadas pela direção do centro, compondo a mesa de debates entre estudantes. Além dos espaços presenciais, publicamos mais de 15 textos, vídeos e cartilhas em nosso blog, sistematizando nossa crítica, fundamentada principalmente na análise do empresariamento da universidade pública – processo do qual as EJs seriam uma faceta – e do empreendedorismo, discurso ideológico propagado pelas EJs como solução para o desemprego e desenvolvimento do país[1].

Por outro lado, o movimento pró-EJs na UFSC (articulação de EJs e estudantes de toda a universidade), em comparação, realizou três espaços presenciais: dois eventos de “apresentação” das EJs-em-construção da psicologia e oceanografia (30/09 e 24/10, respectivamente), e uma sessão de “perguntas e respostas” (a ser realizada dia 12/11). Publicaram em seu blog três pequenos textos, nenhum deles em resposta às nossas críticas centrais. Em um destes três textos, traçaram considerações sobre uma tira em quadrinhos que publicamos anexada a um texto maior, a que não se referenciaram. Em outro, fizeram uma crítica pontual de nosso jornal TIK, mas se absteram de responder à nossa réplica[2]. Publicaram também alguns vídeos, reproduzindo a linha dos textos, qual seja, apoiar-se numa ideia de pluralismo, segundo a qual as EJs estariam automaticamente legitimadas pelo desejo de alguns estudantes cria-las (e acusando-nos de autoritarismo ao questioná-las), e esquivando-se da discussão sobre a relevância dessas organizações em termos de suas consequências para o ensino, a extensão e a pesquisa universitária.[3]

A comparação quantitativa e, principalmente, qualitativa, da atuação dos movimentos pró e contra não interessa aqui apenas para pontuar que um grupo mostrou-se mais competente do que o outro. Reitero, meu principal interesse é analisar o que a atuação de cada grupo revela sobre o mesmo, e se está em consonância ou não com o discurso propagado nos materiais.

Comecemos pelo grupo pró-EJ, onde as contradições fácilmente se evidenciam. Como já afirmado, e facilmente verificado pela leitura de seus materiais, a defesa das EJs se fundamentou numa ideia deturpada de pluralidade para sustentar o que chamamos de “tática vitimização”: colocam-se na posição de vítimas, que “só querem” uma formação de qualidade, em contraposição ao grupo contrário, o bando de autoritários malignos que os proíbe de fazê-lo.

O problema com esse tipo de postura é que ele não debate democraticamente os fundamentos. A democracia não é a existência de posições individuais opostas, mas a possibilidade coletiva de que elas possam ser pensadas, contrapostas, pesadas, debatidas e – inclusive – de que ideias novas surjam justamente por isso. Assim, a única maneira de garantir a pluralidade é levar esse momento de debates verdadeiramente à sério. Do contrário, perdemos a democracia e a pluralidade, elas tornam-se palavras esvaziadas de seu sentido potencial. Comprovação disso é o fato de que, apesar de afirmarem repetidamente a pluralidade, recusaram por duas vezes participar das mesas de debate organizadas pelo Movimento Contra.

Esse período de debates que será encerrado com uma assembléia do CFH (na quarta-feira, 13, às 16:30) é um momento único em nossa experiência universitária. Raros os momentos em que alguma das grandes questões político-pedagógicas são postas para o debate coletivo. Daí mais uma vez a importância de que estejamos envolvidos verdadeiramente nessa experiência de “democracia direta” e que façamos com que se torne a regra e não a exceção!

A postura do movimento a pró-EJs não tem sido coerente com esses princípios norteadores, já que simplesmente recusaram-se a debater publicamente conosco também por meio da forma escrita. Ainda é preciso que possam nos dar uma verdadeira resposta às criticas sobre o empresariamento e o empreendedorismo que fizemos desde 2011. Sem isso, esse debate se torna mera disputa de “torcidas organizadas” e isso está longe de uma postura intelectual com a qual temos compromisso nas universidades.

O único argumento do movimento pró-EJ tem sido o da pluralidade: toda e qualquer iniciativa estudantil é válida e deve ter espaço na universidade. Em princípio somos levados a concordar, mas se paramos um instante para pensar em todos os exemplos de iniciativas estudantis, logo nos deparamos com inúmeras que não deveriam ser acolhidas pela universidade. Ou seja, a universidade brasileira tem recursos limitados e princípios norteadores e todas as iniciativas devem ser pensadas a partir deles. Portanto, o que a EJ precisaria demonstrar é que está em consonância com tais princípios públicos. Nós dissemos que não, por conta do que representam: empreendedorismo e empresariamento, mas a recusa em que debatam esses elementos, retira da maioria dos estudantes a possibilidade de levar as EJs à sério!

Não negamos a experiência pessoal e individual dos estudantes que participaram de EJs, mas propomos a eles que se somem a nós na construção dos Serviços Modelos Estudantis. Os Serviços Modelos se propõe a ser um espaço gerido pelos próprios alunos, que sob orientação de professores possam desenvolver projetos. Eles não possuem restrições quanto ao número de membros e não são apenas aqueles que participam diretamente deles que se beneficiam, pois os serviços modelos são um meio de avaliação dos currículos dos cursos de graduação, no qual os estudantes atuam, sistematizam as dificuldades encontradas e propõe aos cursos alterações significativas. Eles podem ter projetos em todas as áreas de atuação, procurando transformar as demandas sociais em atenção às necessidades. Isso, pois defendemos que todos devem atender necessidades e não demandas. Finalmente, os serviços modelo, por se integrarem organicamente à estrutura e lógica universitária, não cobram por suas intervenções, compreendendo que a sociedade já investe dinheiro na Universidade, não havendo razão por pagar uma segunda vez. Colegas, abram mão da estrutura empresarial, e trabalhemos juntos!

Se queremos uma formação verdadeiramente crítica, precisamos ter a disposição de sair do nível das aparências e encontrar o real sentido de nossas ações. De nossa parte, coerente com nossas posturas ao longo de todo esse processo de debates, acreditamos que se o movimento pró-ej debater o real sentido das EJs (empreendedorismo e empresariamento) de forma crítica, o sentido real delas emergirá e então, para além de torcidas organizadas, eles abandonariam tais projetos para que possamos construir juntos novos instrumentos pedagógicos que não destituam a universidade pública brasileira de sua potência transformadora.


[1] Não é objetivo deste texto reapresentar toda nossa crítica às EJs. Aos leitores interessados, indico a leitura de nosso blog: https://contraasejsnocfh.wordpress.com/

[2] Sobre a qualidade do conteúdo dos textos, deixamos que os leitores façam seu próprio julgamento: http://www.movimentproej.uni.me/

[3] Ressaltamos aqui o tema da assembleia de 13/11: “a pertinência acadêmico-pedagógica de se autorizar a criação de empresas juniores no Centro”. http://www.portalcfh.ufsc.br/2013/11/07/assembleia-do-cfh-no-dia-13-de-novembro-debatera-sobre-empresas-juniores-no-centro/

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